O Preto Fosco Entrevista No. 10 traz ninguém mais que o polêmico
Paulo Briguet. Famoso jornalista londrinense, formou-se na UEL há alguns bons anos, época que usava camisa vermelha e, segundo ele mesmo, era Trotskista. Bebeu todas e fez a festa nesta época, alcançando recordes históricos na picaretagem etílica estudantil. Até hoje, apesar de bem mais contido, pode ser encontrado na famosa Quinta-Sem-Lei (QSL), happy hour estendido que acontece obviamente todas as quintas-feiras, no histórico Bar Brasil, em Londrina.
Atualmente, após uma reformulação geral baseada, segundo ele, em muita ponderação e auto análise, é um liberal de carteirinha.
Conhecido por suas crônicas acerca do cotidiano, que aliás, são muito boas, de uns anos pra cá, Briguet assumiu uma postura política que vai contra o governo atual do PT e toda e qualquer vertente de esquerda, escrevendo críticas e mais críticas sobre o assunto no seu movimentado blog, o
Repórter das Coisas. Por causa deste discurso, ganhou mais visibilidade na comunidade Tipos e também um monte de inimigos virtuais.
Com muitos amigos espalhados por aí, Paulo Briguet está entrando como pode na crise dos 40. Depois de dormir em uma lareira ali e em outro balcão acolá, esta figura segue firme na luta atrás de uma vida melhor e por uma mesa no Madalena, cativa e na sombra.
[Preto Fosco]: Começando do começo. Meu caro Paulo, me diga: como tudo começou? Na máquina de escrever, no caderninho da escola ou naquele rabo de galo no intervalo das aulas?
[Briguet]:
Caríssimo, tudo começou na máquina de escrever. Olivetti. Presente do meu pai (que é cronista; vai vendo). Mas a vida é Drury´s, Campari as coisas. Um dia quebrou o chumbinho da letra A. Justo o da letra A! Preguiçoso, arrumei solução: escrevia os textos como se nada tivesse acontecido. Logicamente, ficavam espaços em branco onde era a letra A. Oloco, bicho! Tinha que completar as lacunas com caneta Bic ou Kilométrica (“a caneta simpática / por um preço mi-li-mé-tri-co”). Sempre fui tímido, então usava essa desculpa pra convidar as garotas: “E aí, vamos lá em casa completar o A?” Acho que até hoje eu sou meio gago de letra A.
[Preto Fosco]: Na sua época de faculdade, diziam que você carregou por muito tempo o recorde de garotas catadas no curso de jornalismo. Inclusive, dizem que esse recorde se manteve até que outro amigo nosso jornalista assumisse a dianteira. Conte-nos, por favor, como você, um ser vindo da dimensão do bagarai, conseguiu tal feito.
[Briguet]:
Isso é mito. Puro mito. Já me beneficiei dessa mentira; não mais. Não peguei nem mais nem menos mulher que a média. Só o fato de me manter na média já seria um grande mérito, porque eu sou feio bagarai (cinco pessoas pertencem à Dimensão Bagarai aqui no Tipos: eu, o Rocha, o Rubão, o Pafu e o Tanga). Você sabe que eu bebo. Na época da faculdade, mais ou menos no Período Paleolítico, eu bebia mais. E eu fico mais feio ainda quando bebo. Levando-se em conta que eu pegava mulher depois de tomar umas quatro ou nove, a turma se empolgava e superestimava as estatísticas do meu abatedouro. Mas isso foi no Tempo do Onça. Virei monogâmico, e estou feliz assim.
[Preto Fosco]: A sua semelhança com um ex-vereador em Londrina é muito grande. Naquela época em que seu sósia (ou vice-versa) estava na câmara de vereadores, nunca te passou pela cabeça aparecer por lá fingindo ser ele e propor um projeto para transformar o Valentino em patrimônio da humanidade?
[Briguet]:
Como toda obra cubista, eu sou parecido com várias pessoas ao mesmo tempo. Só gente feia tem muitos sósias. Outro dia entrevistei a Maria Fernanda Cândido. Ela não é parecida com ninguém; é parecida com ela mesma, e pronto-acabou. Eu sou parecido com Rubens Canizares, Mr. Burns, Gilberto Kassab, Zapatero (primeiro-ministro da Espanha), Daniel Dantas (na cara de bobo); meu pai diz que eu sou a cara do Collor. Quanto ao projeto de lei, acho que não iria mexer com o Valentino, não. A exemplo de todos os bons botecos do mundo, ele já é patrimônio da humanidade. Iria defender em plenário a privatização da Prefeitura de Londrina (coisa que por sinal eu já fiz, numa crônica). Mas acho que não apareceriam compradores.
[Preto Fosco]: Você é um famoso usuário de neosaldina, conhecido analgésico utilizado por pudins de cachaça feito nós (sim, eu me incluo no pacote) para amenizar a ressaca do dia seguinte. Porém, ultimamente, você tem falado pouco na santa cápsula. O que está acontecendo? Você trocou seu fígado por um filtro de óleo e agora não sofre mais dos malefícios do álcool etílico ou você resolveu virar pai de família e abandonar essa vida de cana, cana, cana?
[Briguet]:
Tô pegando leve, Daniel. Casório é casório; quero filho, quero filhos, quero roncar menos, quero economizar dinheiro, quero economizar tempo, quero diversificar um pouco. Mas continuo sendo referência em assuntos neosaldínicos. Aqui no jornal minha fama se espalhou por todos os setores. Até a tia do cafezinho vem me pedir dona Neosa. Não recuso.
[Preto Fosco]: Ok, o que todo mundo quer perguntar mas ninguém o faz: essa polêmica toda sobre política e sua "briga" com o pessoal do Vaca, a Margo e o Marcião já viraram lenda aqui no Tipos. A questão é que isso começou de uns anos pra cá. Acho que no final de 2004. Antes, você publicava suas crônicas, posts divertidos, contando do cotidiano. É claro que vira e mexe você enfiava o dedo na ferida de alguém, mas hoje em dia a peleja parece ser mais dirigida. A pergunta é: o que aconteceu para ocorrer essa mudança de postura (na falta de uma melhor expressão)?
[Briguet]:
Se alguém está incomodado com a postura, que procure um ortopedista. Essa história de “briga” (obrigado pelas aspas) é só uma forma de conseguir mais ibope. Quebra-pau dá audiência. Gosto da Margo: ela é minha fã no Orkut; vive dizendo que meu blog é o melhor do Tipos; certa vez confessou que gostaria de transar comigo (ficou e ficará na vontade); é amicíssima da Janaína Ávila, que a considera uma pessoa generosa – então deve ser mesmo. Gosto do Marcião: se todo mundo me desprezasse da mesma forma que ele, eu seria um best-seller (e tem outra: se é seu melhor amigo, só pode ser gente boa). Gosto do povo do Vaca: são mais divertidos que plástico-bolha. Quando Margo, Marcião ou os Vacas escrevem bem, eu elogio – infelizmente, a recíproca não é verdadeira. Mas é assim mesmo. No “calor da polêmica” já falei besteira: ofendi o Marcião, ofendi o Reverendo (tá bom, tá bom, ele não teve uma educação ateísta; eu é que tive, por parte do meu pai). Pedi desculpas e estou aqui. Amo muito isso tudo.
[Preto Fosco]: Você ainda não cansou de ficar batendo na mesma tecla? Esse papo de liberalismo e o escambau já deu na venta, não?
[Briguet]:
Hitchcock dizia que estilo é a arte de copiar a si mesmo. Sem repetição, seríamos iguais àqueles scanners do filme “O homem duplo”. Só o liberalismo político e econômico explica a existência 1) da internet; 2) dos blogs; 3) do Tipos; 4) daquela cerveja da Cantina do Nonoca que eu vou tomar quando terminar esta entrevista. O que enche o saco é o estado. Quando eu era trotskista, eu já era liberal; só não admitia pra mim mesmo, porque bonito era ser de esquerda. Meu esquerdismo era auto-engano. Liberalismo, para mim, é como dormir em bar: marca registrada. Vocês vão ter que me engolir. (Frase seguida por risada de vilão: buaahahahahahahaahhaha!)
[Preto Fosco]: Fora o jornal e o Tipos, o que você anda produzindo? Peças de teatro? Livros? Esculturas de xixi na areia?
[Briguet]:
Produzo bem menos do que deveria. Mas devo lançar um livro de crônicas ainda este ano. Mais um livro de crônicas, no ano que vem, em parceria com meu pai (já tem nome: “Mea culpa”). Um livro de poemas está lá, mas preciso editar, reescrever, o escambau. Há séculos quero escrever uma comédia dramática e um romance, mas por enquanto estou terminando um texto por encomenda: um monólogo sobre o Santos-Dumont (“Hangar 14”) que deve estrear em dezembro. A última escultura de xixi na areia que eu vi foi a cara do Nedson.
[Preto Fosco]: Outro tema pelo qual você é conhecido é a sua ojeriza pela cerveja Kaiser (da qual também compartilho). Tente, por favor, explicar para os leigos porque esse líquido nojento conhecido como Kaiser tem gosto de água de azeitona.
[Briguet]:
Kaiser? É simples. Eles selecionam o melhor lúpulo, a melhor cevada, a mais cristalina água mineral; realizam uma fermentação cuidadosa; a bebida resultante passa pela degustação de mestres cervejeiros – e, ao final disso tudo, adicionam merda. Tá pronta a Kaiser. Aliás, Kaiser é o Skank das cervejas; Skank é a Kaiser da música. Se todas as fábricas de cerveja fossem estatizadas, como desejaria nossa esquerda, a Kaiser teria o monopólio do mercado.
[Preto Fosco]: Aproveitando o assunto da cerveja, você, como um experiente escorador de balcão, saberia dizer qual a medida exata da cachaça para ficar alegre sem perder a dignidade e poder dar aquela sem brochar? Em quais sinais devemos prestar atenção?
[Briguet]:
Quando você estiver bêbado, pense na Preta Gil. Pergunte a si mesmo se você encararia. Se a resposta for sim, você vai brochar. Se a resposta for não... vá em frente.
[Preto Fosco]: Depois de anos e anos remando, parece que você vai mesmo casar (pelo menos, foi o que eu ouvi). Diga, meu caro, quando você acorda a noite, meio perdido, qual pensamento te vem a cabeça: "Será que eu devo mesmo casar?" ou "O que essa louca viu em mim?"
[Briguet]:
Vou casar. Não sei o que a Rô viu em mim, mas sei que nunca mais vou ganhar na Loteria. Não acontece duas vezes na vida.
[Preto Fosco]: Qual é a pior parte no trabalho de um jornalista? Ter que aguentar a interferência no seu texto para seguir tal linha "editorial", ter que escrever matérias sobre o sete de setembro ou não ser tão bonito pra aparecer na TV feito Marcelo Rocha (hahaha)?
[Briguet]:
Daniel, falando sério: aqui no JL, nunca interferiram no que eu escrevo. Acho que ninguém liga muito pra mim. Manja café-com-leite? Duro mesmo é ir ao campo para ver um jogo da Portuguesinha/Cambé e, ao mesmo tempo, ouvir o jogo do Tubarão pelo rádio – e fazer duas matérias. Aconteceu ontem. Sou mesmo um loser, como se diz por aí.
Gostaria de agradecer ao caro Paulo Briguet pelas respostas claras e divertidas. E, é claro, pela aula sobre Kaiser e sobre a Preta Gil. Crianças do mundo ainda irão te agradecer, meu caro.
--- PULGA ---
E na próxima, Salomé, nossa querida psicocyberterapeuta de plantão.
ah. adoreeeeei a entrevista. tá demais. a preta gil foi de matar! fiquei curiosa sobre o hangar 14 e com vontade de ir a festa de casamento. em geral mesmo. o povo daqui nao casa nunca. é um tédio. beijos aos dois.