Nesta semana, o Preto Fosco Entrevista encara um novo desafio: entrevistar uma pessoa que o entrevistador (é... no caso, eu) não conhece pessoalmente. Aliás, o único contato que eu tive com a bola de vez foi pelo Tipos. Estou falando de Ariadne, nossa amiga mineirinha que se mandou para a Europa há tempos atrás.
Nascida em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, formou-se em jornalismo na UEL em 2000, tendo como colega alguns dos Tipos que escrevem por aqui. Mora na Alemanha há seis anos e, atualmente, está terminando seu mestrado.
Apaixonada por cinema, línguas e fotografia, Ariadne escreve no Tipos desde o final de 2001. Apesar de não comer carne e fazer yoga, a moça não tem pinta de "flower power psicodélico pé sujo". Pop assumida, adora o Superman, tirar fotos da natureza e falar do cotidiano. E define-se como uma pentelha nata, apesar de perder feio pra outros Tipos por aí.
[Preto Fosco]: Começando pelas suas origens. Você é do Triângulo Mineiro, conhecida região do estado de Minas Gerais. Alguns amigos mineiros costumam dizer que o famoso triângulo é formado por três cidades principais (as 3 cidades com B): "Beraba, Berlândia e a Bosta de Araranguá". Qual o tamanho de Ituiutaba? É verdade que mineiro gosta mais de queijo do que da mãe? Aliás, você sabe fazer pão de queijo? E, afinal, onde fica o triângulo de Minas?
[Ariadne]: Primeiramente, o correto é “a Bosta de Araguarí”, cidade que não conheço e portanto, não posso julgar... Quanto a Ituiutaba... minha querida cidade natal tem por volta de 80 mil habitantes, número que, de acordo com o IBGE, diminui a cada ano. A maioria de meus amigos de colégio e infância estão vazando de lá assim como eu, pelas mais variadas razões, mas principalmente devido ao desemprego. E não, mineiro não gosta mais de queijo do que da mãe. Isso é apenas mais um daqueles estereótipos ridículos que os “outsiders” gostam de cultivar. E sim, sei fazer pão de queijo. Aprendi assim que me mudei para a Alemanha, pois a única forma de comer o tal quitute por aqui é pondo a mão na massa. Ah, o Triângulo de Minas fica lá onde se encontra “o pássaro azul”.
[Preto Fosco]: Como é que uma mineira de Ituiutaba foi parar em Londrina e depois na Alemanha? Você acha que esse mundão é mesmo "véio e sem porteira"?
[Ariadne]: Fui parar em Londrina por conta de meu irmão: ele tinha participado do Intercom na UEL e ficou tão impressionado com a organização do evento, a beleza e a energia da cidade, que me sugeriu ir prestar vestibular por lá, mais mesmo para conhecer a cidade. Passei e decidi ficar. Já que tinha acabado de sair do colegial e estava com indisposição psíquica para repetir toda aquela bobagem física, química e matemática em cursinhos. Tempo é dinheiro, dizem por aí, e eu não queria perder o meu. E sim, o mundo é mesmo velho e sem porteira. Apesar de ouvir gente dizer que eu tinha roubado a vaga de paranaenses (ao que retruquei: não tenho culpa de mineiro ser melhor educado! - Só pra não levar desaforo pra casa), segui em frente e desde então tenho conquistado meu lugar fora de Ituiutaba (sim pois o povo da “metrópolis” Uberlândia também tira sarro dos Ituiutabanos, que tiram sarro dos Capinopolenses, e assim por diante. O apego a estereótipos é tipicamente humano: aquilo que não se compreende tem que ser zombado. Uma pena.).
[Preto Fosco]: Vamos ao que interessa: cerveja! Aí na Alemanha você deve ter experimentado algumas das melhores cervejas do mundo. Quais os seus tipos e marcas prediletas? Como funciona a relação dos alemães com a cerveja? É mais ou menos como a nossa, aqui no Brasil?
[Ariadne]: Nesse caso devo assinalar que vivo na Baviera, e portanto, realmente já experimente algumas das melhores cervejas do mundo, pelo menos é o que dizem. A cidade - de 12 mil habitantes - em que morava tem nada menos que três grandes cervejarias (leia-se “fábricas de cerveja”), que há mais de 650 anos vêm produzindo produtos de altíssima qualidade. Não vou citar marcas prediletas, pois há inúmeras, mas posso dizer os tipos de cerveja que mais gosto: não curto muito a Pils, típica no Brasil, pois é muito amarga. Gosto mais da Helles (cerveja que as mulheres gostam mais). Os homens curtem tudo, mas dão preferência para a Weizen e também Starkbier e Dunkles (com 7% e 5,5% cada). Há mais variedades e cada povoado tem sua cervejaria de tradição. É uma loucura difícil de entender. Quanto à relação dos alemães com a cerveja... aqui eles têm mais “liberdade” para beber pois vêem a cerveja de forma diferente, quase como um refrigerante. Por exemplo, há companhias que permitem o consumo de uma quantidade moderada de alcohol durante o expediente (semana passada no trabalho teve uma festinha de despedida regada a cerveja). E há quem não dispense uma cervejinha na hora do almoço. Mas no final das contas, eu gosto mesmo é de vinho.
[Preto Fosco]: Uma vez você disse em um post (aliás, eu adorei esse post por motivos óbvios) que você é influenciada por pessoas que conhece na Internet. Fiquei curioso na época, mas acabei não perguntando. Agora, eu posso! HE Explique aí que história é essa.
[Ariadne]: Essa é fácil de responder. Disse isso porque conheci meu marido na internet, para ser mais precisa, em um chat room do Yahoo.
[Preto Fosco]: Pergunta obrigatória para os "estrangeiros". Do que você sente mais falta do Brasil? Da comida, da esbórnia, do carnaval ou de ver a Mangueira entrar?
[Ariadne]: De nada disso. Sinto falta das pessoas que amo, do calor humano brasileiro. De entender o que dizem, até sem prestar muita atenção. Não, não sinto falta de ver a Mangueira entrar, mas sim da língua que canta o carnaval.
[Preto Fosco]: Sempre ouvi falar mal da mulher alemã. Os amigos brasileiros que visitaram ou moraram na Alemanha diziam que elas não se cuidam. Um amigo alemão que mora na Holanda disse que elas são muito metidas (sem duplo sentido). Até a minha viagem à Europa, em agosto passado, a única alemã que me vinha à cabeça quando pensava no assunto era a "Claudia Schiffer". Enfim, a pergunta é: como é a mulher alemã? E se é verdade que elas não se cuidam, isso tem a ver com o fato dos homens aí se preocuparem mais com carros do que com mulheres?
[Ariadne]: Mais um estereótipo! A mulher alemã é como a brasileira: gorda-magra, feia-bonita, metida a besta-boazinha, apaixonada, patricinha, desleixada ou meio termo. Tudo depende de classe, educação, idade, geração. Na universidade a maioria é bem cuidada. Há as patrícias que andam sempre na moda, por pior que ela seja, e carregam na maquiagem; há as descoladas, com um estilo próprio cult, e umas mais simples, estilo jeans-tênis, que é o meu caso. Há muitas loiras, mas ao contrário do que muitos pensam, não são a maioria. Um fato curioso: para mim as loiras são como os japonês: tudo igual. Às vezes encontro umas ex-colegas pelos corredores e não as reconheço. Já de mim, ninguém se esquece... então acabava dando bobeira constantemente. Hoje em dia cumprimento quem me cumprimenta para evitar consternações. Quanto aos carros e os homens... bem se vê que homem é besta em qualquer lugar do planeta, mas isso não afeta a atitude da mulher.
[Preto Fosco]: Que papo é esse de "gosto de pentelhar todo mundo" que você me falou um dia desses? Você é daquelas que fica perguntando "por que?" seguidas vezes, até que a outra pessoa surte?
[Ariadne]: Sou pentelha em dois níveis: o pessoal e o “lingüístico”. Sou pentelha-brincalhona-zoadeira, mas apenas entre amigos íntimos e familiares. Não suporto brincadeira de desconhecidos, portanto não brinco com desconhecidos. Mesmo porque só entende meu senso de humor quem me conhece. Aqui eu sofro. O povo alemão não entende minhas brincadeiras, nem quando são pessoas mais íntimas. Vivo explicando minhas piadas e ironias, e no fim sempre fica aquele silêncio constrangedor no ar. Choque cultural é uma bosta. Literalmente: fede. Mas nem sempre. Meu marido e eu navegamos no mesmo barco. Por isso, e agora vem o aspecto lingüístico, não me reprimo ao perguntar mil vezes qual o significado daquela palavra que ele me explicou há dois dias. Tenho mania de perguntar e não prestar muita atenção na resposta, e perguntar mais uma vez, e de novo, até que a paciência vá para o brejo e eu seja forçada a consultar o dicionário.
[Preto Fosco]: Seu marido é alemão, isso acho que quase todo mundo sabe. Ele entende essa maluquice que é o Tipos? Você tenta explicar pra ele as coisas ou é melhor nem tentar?
[Ariadne]: Omitir é um dos ingredientes mais importantes para um relacionamento de sucesso. A “outra” parte não tem necessariamente que saber tudo. Ainda assim, como sou advogada da sinceridade, já discorri com meu amado sobre o que é o Tipos. Ele sabe o que é, temos até um blog-estacionado conjunto – “2 Climbing the Tower” - mas a barreira lingüística, ou a paciência, ou a falta de saco mesmo, o impede de se entregar ao Tipos. É melhor pra ele. Creio.
[Preto Fosco]: Li uma vez no blog da Mazi que você é uma pop assumida. Sendo uma "pessoa pop", seja sincera e me diga: o que você achou da separação da dupla brega-romântica Sandy & Junior? E da apresentação ridícula da Britney Spears no MTV VMA 2007? Você, como o Groo, adora o Justin Timberlake?
[Ariadne]: Eu disse que sou pop, não brega! Sem querer ofender ninguém, pois para muitos Superman é pra lá de brega (até pra mim, mas eu gosto), e sem entrar em discussões semânticas a propósito do lexema “pop” (tema já discutido “a fundo” no blog da Margo) devo esclarecer que ao assumir ser uma pessoa pop pretendia apenas demonstrar que sou deveras flexível, capaz de apreciar uma variedade de obras que vão de um extremo a outro, do podre ao não-podre. Sendo assim, admito estar um tanto por fora da cena musical sobre a qual se basea tal pergunta. Tentei assistir ao vídeo do Timberlake no blog da Mazi, mas ao ouvir os primeiros “grunhidos” da música, concluí que não tenho mais saco para adaptar meu gosto musical assim, tão drasticamente. Gosto de variados tipos de música, mas não daquilo! Disso tenho certeza. Já o problema da Britney é a idiotice inata de uma bonequinha de luxo que a mídia insiste em tatuar nas nossas entranhas. Quanto aos brega-românticos... vou poupá-los de comentários. É o melhor que posso fazer por eles.
[Preto Fosco]: Segundo informações da grande imprensa você é casada há 7 anos, 3 meses e alguns dias. É verdade essa história de crise dos 7 anos?
[Ariadne]: No meu caso não. Para dizer a verdade, nosso relacionamento só tem melhorado. Acho que tem a ver com nosso amadurecimento (envelhecimento?!). Casamos muito jovens e tivemos a oportunidade de crescer juntos. Estamos tão conectados que às vezes lemos os pensamentos um do outro (eu sempre achei que isso era lenda, mas acontece de verdade). Sete anos parece muito tempo, mas na verdade tudo passa tão rápido... talvez isso se deva ao fato de sermos muito bons amigos antes de sermos apenas um casal-casado.
[Preto Fosco]: Você era uma amante do torresmo, que aliás, é uma tradição da sua família. Porém, parou de comer carne aos 25 anos. Imaginando que você deve ter a mesma idade que eu e mora na Alemanha há 6 anos, isso quer dizer que você nunca colocou na boca um legítimo salsichão alemão?
[Ariadne]: Tenho 28 anos e não como carne há nove meses (são mesmo incríveis as fofocas que a “grande imprensa” espalha sobre a gente!). Então... já comi muito salsichão alemão... e mesmo sem comer carne continuo pondo muita salsicha na boca: salsichas de tofu também são uma especialidade por aqui.
Gostaria de agradecer à Ariadne pela ironia e desprendimento ao responder perguntas tão mal intencionadas. Apesar de ter caído no meu conceito (salsicha de tofu? cada coisa...), adorei a entrevista. Mais uma pra me chamar de machista e bairrista. Tô cada dia melhor. ho ho ho
--- PULGA ---
E, na semana que vem, mais uma pra me esculachar: Marina, minha irmã aborrecente.