O Preto Fosco Entrevista dessa semana vai tentar, de novo, fazer uma coisa que já foi comprovadamente indigesta para este que vos escreve: entrevistar alguém da família. Pois bem. Esta semana, nada mais, nada menos que
Marina, que todo mundo sabe quem é. Marina está terminando o segundo ano do segundo grau e se preparando pra seu primeiro vestibular, como "treineira".
Cabeça dura como o pai e o irmão, a menina insiste em investir na carreira de comunicadora, ainda indecisa entre publicidade e jornalismo, mesmo com o alerta dos amigos aqui do Tipos. Seu blog, o "Igual a tudo na vida" é elogiado por boa parte dos leitores. E, apesar da pouca idade, sabe escrever feito gente grande, poupando os leitores do miguxês e outras babaquices comuns aos aborrecentes da sua faixa etária.
Com gostos um tanto quanto esquisitos, apaixonada pelo Johnny Thunders, fã de leite integral e de dias frios, Marina está sempre rodeada pelos amigos e pela família. De humor inconstante, com exceção das manhãs, quando está sempre de mal com a vida, ela ri de qualquer bobeira que dizem pra ela, mas não consegue se divertir vendo TV sozinha.
[Preto Fosco]: Na época que você cantava na igreja, há uns bons 7 anos atrás, deu pra perceber que você tem uma bela voz. Por que você não aproveitou a sua veia Rock'N'Roll e montou uma banda pra infernizar um pouco mais a vida dos seus pais, que acharam que estavam livres disso depois que seu irmão mais velho saiu de casa?
[Marina]:
Nunca montei uma banda porque minhas amigas só tocam piano e bateria imaginária. E também porque eu nunca precisei fazer nada além de existir pra infernizar a vida de ninguém, você que me tem como irmã mais nova deveria saber disso.
[Preto Fosco]: Aliás, já que estamos no assunto, você se lembra daquela época? Dos ensaios, dos meus amigos esquisitos? Você pretende pedir indenização pelos danos causados à sua audição?
[Marina]:
Eu me lembro bastante daquela época. Eu cresci no meio de várias pessoas que usavam uns moicanos enormes e coloridos (eu tenho na cabeça a imagem de uns caras colorindo e arrepiando o cabelo no meu banheiro). E esses caras comiam pra caramba e usavam os meus giz de cera pra pintar o seu quarto. Só por isso que eu quero indenização: a caixa de Crayons com sessenta e tantas cores que a mãe trouxe dos Estados Unidos praticamente evaporou antes de chegar nas minhas mãos pequenas e gordinhas. Os danos à minha audição foram úteis quando eu cresci um pouco.
[Preto Fosco]: Seu irmão não é um cara ciumento. Nunca teve ciúme das irmãs, até porque elas sempre aprontaram as delas na mineira, sem dar na vista. Porém, tem um primo seu que, junto com os amigos do seu irmão, ficam meio que na vigia. Isso te incomoda? Ou você não se preocupa com isso porque só vai beijar na boca quando tiver com 30 anos?
[Marina]:
Claro que não me incomoda. Primeiro porque eu faço tudo bem quieta e ninguém fica sabendo, segundo porque um dia esse meu primo pode ser útil pra arrebentar a cara de algum filho da puta que me sacanear e terceiro, porque eu não vou apanhar mesmo, então não to nem ligando.
[Preto Fosco]: Aliás, falando em namorados, você já pensou como será apresentar um dia um namorado seu naqueles domingos de almoço em casa, com metade da família e boa parte dos amigos do seu irmão presentes? Você fica mais preocupada com a reação do seu escolhido no meio de tantos adjetivos amistosos ou da reação da familháge + amigos, frente ao rapaz? Você acha que isso restringe suas opções?
[Marina]:
Não, nunca pensei nisso, até porque eu não quero ter um namorado tão cedo. E que diferença faz?
O cara vai ter que saber muito antes de me conhecer que pra entrar na minha família vai ter que agüentar essas coisas.
Isso não vai restringir opção nenhuma, porque o Betão vai zoar qualquer cara que aparecer na frente dele. Na verdade, eu só não quero namorar um japonês, porque a zoação vai ser bem maior. Meu pai sempre fala que na família já tem um namorado gaúcho e um negão, só falta o japa. Mas eu faço questão de não dar essa alegria pra ele. Agora sobrou pro meu irmão.
[Preto Fosco]: Suas amigas vivem dizendo que na sua casa só tem comida boa quando um dos seus irmãos de fora vão pra Londrina. A informação procede? Você acha que sua mãe e sua avó tem predileção por algum dos irmãos? Aliás, o vai rolar aquele pão de mel com chocolate quando seu irmão for pra Londrina de novo?
[Marina]:
Sim, a informação procede. Minha mãe e minha vó só fazem coisas gostosas quando o meu irmão vem, porque quando vem a Carol, quem cozinha as coisas deliciosas é ela.
Eu até estive conversando sobre a tal predileção com a minha mãe. Ela não admitiu ter um filho predileto, lógico. Mas disse que toda mãe tem. E tem mesmo. Logo, a minha mãe também tem o filho predileto.
Sabe de uma coisa? Eu concordo com a minha prima Vivi que você está fazendo essas entrevistas só para ser elogiado. Você é o filhinho predileto da mamãe. Tá feliz??
E aquilo que ela faz nem é pão de mel com chocolate. São cookies, tipo aqueles americanos. Ela só faz no Natal e ano passado, você devorou UM POTE INTEIRO em uma sentada na frente da TV. Lembra?? Faz quase um ano que eu to pedindo esses cookies pra ela. Nunca fui atendida.
Só pro Marcião não dizer que eu só reclamo, eu fui atendida quando troquei meus ovos de páscoa por trufas. Mas de resto, é capeletti pro Daniel, maminha e porpeta porque o Daniel gosta, strogonoff, empadão de frango...
[Preto Fosco]: Você esperava toda essa receptividade no seu blog após a migração para o Tipos? A que se deve o fato da sua boa escrita e expressão? Muita leitura ou aquele pito que você tomou do seu irmão quando você começou a escrever em miguxês? Você acha que a não utilização do miguxês do seu blog afasta o público adolescente?
[Marina]:
Não, eu não esperava e ainda acho que o meu blog é um pouco superestimado.
Eu tenho facilidade pra escrever porque eu sempre fui muito estimulada. Assim que eu aprendi a ler, minha irmã – a Clarissa – lia comigo antes de dormir todas as histórias do Sítio do Picapau Amarelo. E eu também sempre gostei da turma da Mônica. Mas eu comecei a ler mesmo quando saiu o primeiro livro da série Harry Potter. Eu só li os dois primeiros, mas depois disso eu nunca mais parei de ler.
Eu não acho que a não utilização do miguxês afaste o público adolescente do meu blog não. Quem eu quero que leia sempre lê e entende o que eu quero que seja entendido. E tem muito adolescente troxa demais por aí. Esses eu até prefiro que nem me leiam.
[Preto Fosco]: Por que você acorda tão de mau humor? Você é daquelas que gostaria de dormir até as 10h todo dia? É por isso que você quer ser jornalista? Pra arrumar um trampo das 14h às 20h e poder dormir até o meio dia, incluindo feriados e dias santos?
[Marina]:
Eu acordo de mau humor porque eu sou afim. Tem dias que eu acordo super feliz e alegre, até que eu ouço o vizinho martelando repetitivamente as seis da manhã ou acelerando o carro que parece que vai explodir. Aí chega um imbecil no corredor do colégio e grita bem perto de mim ou chega me apertando. Isso irrita.
É simples: eu não gosto de conversar de manhã. Só falo o necessário. Quando eu acordo, eu demoro bastante pra perceber as coisas. Aí já chega um monte de gente berrando, fazendo perguntas, me falando pra fazer nove coisas ao mesmo tempo...aí eu fico puta mesmo. E quando eu acordo de bom humor, ninguém agüenta também.
E não, não é por isso que eu quero ser jornalista. Se eu acordar as 10 da manhã, eu vou ficar de mau humor até o meio dia. E, puta que pariu, será que dá pra parar de implicar??
Eu só não te chamo de chato porque senão vão falar que eu sou assim também.
[Preto Fosco]: Esse papo de "ócio criativo" que você insiste em dizer não é desculpa de vagabundo, não? Me vem à cabeça aquela imagem do escritor derrota, que fez fama, deitou na cama e agora vive de encher a cara em eventos "na faixa" pra qual é convidado só por causa daquele livrinho pseudo que ele escreveu uma vez. Esse é o seu sonho de consumo? Viver na flauta pra sempre, escrevendo um continho aqui, um poeminha ali?
[Marina]:
Não, meu anjo. Não é desculpa de vagabundo.
E eu não quero escrever livro nenhum, nem ter filho. Vou ficar só naquela de plantar uma árvore que assim é melhor pra todo mundo. Logo, eu também não vou viver na flauta pra sempre. Até porque, como você bem sabe, na minha família ninguém agüenta ficar parado. Nas férias eu já acho chato pra caramba ficar mais que três dias em casa, só saindo a noite.
E eu não sou nada poética. Não sei escrever poema. Só escrevo pra tirar uma com a cara das minhas amigas.
[Preto Fosco]: Marina, quando é 1345 dividido por 432? O que é tão difícil assim em matemática? Você não acha estranho seu irmão saber contar em binário e você não saber quais são os números primos de 0 a 300?
[Marina]:
1345 dividido por 432 é 3,1134259259259259259259259.
Matemática nem é difícil. O problema é que na segunda série, uma professora anta me ensinou errado a fazer contas de subtração. Eu nunca superei esse trauma. Aí agora eu tenho uma professora de matemática que parece uma mistura de Roberto Carlos com Tia Irene, fala mais que a minha família toda e passa a matéria do jeito mais complicado possível. Não dá.
Não, eu não acho estranho que o meu irmão saiba contar em binário. Ele não faz mais que a obrigação. Estudou pra isso, não foi? Então. E além do mais, dois nerds em uma família só é triste.
[Preto Fosco]: Você é sabidamente descoordenada. Por que você insiste em cortar sua própria franja?
[Marina]:
É simples: minha franja cresce muito rápido e fica no olho. Eu não tenho paciência pra ir de três em três semanas no salão. A cabeleireira fica perguntando da minha vida e de mais várias pessoas que eu conheço. Eu não suporto responder a essas perguntas, acho chato pra caramba.
Cortando o meu cabelo sozinha, eu economizo a caminhada, não tenho que responder a perguntas pentelhas e ninguém enche o saco falando que meu corte de cabelo é "meio maluco". Mas agora eu estou aprendendo a cortar certinho. Até já arrumei umas cobaias e combinei com umas amigas de abrir um salão de beleza se nada der certo na nossa vida.
[Preto Fosco]: Que papo é esse de ser apaixonada pelo Johnny Thunder? O cara era um drogado, sem naipe, arruaceiro e feio de dar pena. Você tá seguindo a mesma escola de Salomé, de pegar astros do rock só porque são astros do rock? Aliás, aquele quadro do Iggy Pop que fizeram você tirar do seu quarto é meio assustador mesmo.
[Marina]:
O Thunders era legal pra caramba não era feio de dar pena coisa nenhuma. Bonito também não era, mas é melhor que Menudo, né? E arruaceiro sem naipe o Lemmy também é, segundo você mesmo. Aliás, isso que é legal. Se eu não achasse massa um cara arruaceiro sem naipe, eu não ia gostar de rock, e sim de uma boyband qualquer.
E podia ser pior. Eu podia escutar Sandy e Junior ainda. Cansei, sabe? Se você não parar de me pentelhar, eu vou contar pra todo mundo que você me dava cds deles quando eu era menor.
A Salomé sabe das coisas e sempre me defende da repressão do meu irmão. Eu aposto um rim que tem mulher que se não tivesse mostrado a bunda na Playboy, ninguém nunca ia reparar se visse na rua. É mais ou menos assim. E eu prefiro o Thunders no Heartbrakers, só pra deixar claro.
[Preto Fosco]: Sua altura é 1,62m. E seus amigos brincam com você por causa disso. Seu irmão nem é tão baixinho mas, mesmo assim, os amigos dele chamam ele de portuguesinho, falam que ele tem só 1,69m de altura e que tem as perninhas curtas (vulgo anão do paraguai). O fato de ser baixinha te incomoda? Não tem lá as suas vantagens? Você acha que seria mais feliz com 1,75m de altura?
[Marina]:
Não, eu não me incomodo em ser praticamente uma anã. Só fico pensando no seguinte: eu podia ter puxado o hipermetabolismo da Clarissa, que come o dia inteiro e desde que eu nasci tem os mesmos 47 kg. Podia ter a altura da Carol, podia entender tudo de matemática, tipo você.
Mas não! O vô Carvalho já falava que a pessoa sempre puxa o lado ruim. Eu sou baixinha igual você, não tenho o hipermetabolismo da Clarissa, e sofro pra encontrar uma calça que me sirva, igual a Carol.
Falando sério agora, isso nem me incomoda. Eu ando por aí a noite e não bato a cabeça em nenhum galho de árvore, em nenhuma placa. Os meus amigos vivem com a cabeça cheia de folhas e galos e reclamando de dor nas costas porque têm que se abaixar pra fazer tudo.
Depois que eu comecei a sair com uma amiga minha de 1,58 e meio, eu cheguei à conclusão que ser mais alta não mudaria muita coisa. E eu detesto usar salto. O que são 13 centímetros na vida de uma pessoa, minha gente?? Nada!!!
Obrigado à Marina pelas respostinhas mal educadinhas. Seu irmão é um cara legal e você não deveria falar assim dele, pirralha!
--- PULGA ---
Como vocês puderam perceber, a entrevista não foi publicada ontem por motivo de força maior...
--- PULGA ---
E na semana que vem, Gaúcho, o churrasqueiro gremista.
Em primeiro lugar parabéns aos dois por mais esta entrevista. Apesar de ter gostado muito da entrevista com a Ariadne, confesso que essas com ataques mútuos são muito melhores!
Em segundo lugar, bela reabertura do tipos!
Em terceiro, e último (pq sempre tem que ter um terceiro), desculpe por ter te incomodado no xukrute (pelo que eu vi não fui a única... hehe).